Agências dos EUA grampearam jornalistas e manifestantes do BLM

Agências dos EUA grampearam jornalistas e manifestantes do BLM

O Departamento de Segurana Interna (DHS) norte-americano teria usado agncias federais para grampear telefones de manifestantes do movimento Black Lives Matter (BLM) na cidade de Portland. Nem jornalistas que cobriam o evento escaparam investigao. o que revela uma reportagem da revista semanal ‘The Nation’. Portland a maior cidade do Estado do Oregon e se tornou o epicentro dos protestos contra o racismo e a violncia policial nos Estados Unidos, desencadeados pelo assassinato de George Floyd, em 25 de maio de 2020.

No auge do movimento, a cidade virou uma praa de guerra. A reao dos homens de farda foi dura, com disparo de balas de borracha e gs lacrimogneo. O Congresso americano chegou a exigir do DHS explicaes sobre a operao. “Stormtroopers no identificados. Carros no marcados. Raptando manifestantes e causando ferimentos graves em resposta a pichaes. Essas no so aes de uma repblica democrtica. As aes [do Departamento de Segurana Interna] em Portland minam sua misso”, escreveu no Twitter a presidente da Cmara, Nancy Pelosi, em meados de julho.

A histria oficial diz quePortland – assim como Nova York e Seattle – so jurisdies ‘anarquistas’, termo que usado como sinnimo de antifa, um coletivo de grupos autnomos de esquerda que se opem a aes, organizaes e governos de tendncia fascista. J a histria contada por dois ex-agentes de inteligncia ‘Nation’, inclui atividades clandestinas, interceptaes de telefonemas e rapto de manifestantes por uma fora-tarefa com agentes federais alm do DHS.

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A frase ‘I can’t breathe’ (Eu no consigo respirar), a ltima dita por George Floyd antes de morrer, virou smbolo nos protestos do movimento Black Lives Matter. Crdito: Josh Hild/Pexels

Misso clandestina e ilegal

Membros dos Comits de Inteligncia da Cmara e do Senado prontamente exigiram saber que tipo de informaes o Escritrio de Inteligncia e Anlise (I&A), diviso especializada do DHA havia coletado sobre jornalistas e manifestantes. Uma carta do Senado lembrava que o I&A ” obrigado por estatuto a manter os comits de inteligncia do Congresso plenamente e atualmente informados de suas operaes”. No entanto, no houve qualquer resposta. Mas logo em seguida carta, Brian Murphy, subsecretrio de Inteligncia de alto escalo foi destitudo do cargo.

De acordo com as fontes ouvidas pela ‘Nation’, ao contrrio da inteligncia secreta mais sensvel, os relatrios dos jornalistas foram baseados inteiramente em informaes j pblicas. Eles lembram que, embora as regras de privacidade geralmente evitem que “pessoas dos EUA” sejam objeto de avaliaes de inteligncia, “esse tipo de sujeira acontece o tempo todo”, explicou um dos ex-oficiais.

Aparentemente, muitos dos agentes federais que monitoraram e agiram em Portland no estavam ali em uma misso oficial. Vrias agncias federais, do DHS ao FBI, buscaram simplesmente voluntrios. “O facto de terem pedido voluntrios mostra que estava fora do mbito das suas funes. Voc s faz isso se no tiver a capacidade de ordenar que algum v, provavelmente porque ilegal”, explica um dos ex-agentes. E outro, ainda na ativa e a servio do FBI, confirmou que recebeu uma chamada para se voluntariar na ao contra os distrbios civis e concordou aquele tipo de convite era extremamente incomum. “Esta a primeira vez que vejo pedidos de voluntrios para outro escritrio de campo”, disse a fonte.

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Indcios so de que o governo de Donald Trump tratou os protestos pblicos em massa como suspeitos e alvos de investigao. Crdito: Lina Kivak/Pexels

Ataque de clonagem de celulares

Um funcionrio do DHS, em condio de anonimato, informou que um colega experiente em vigilncia foi enviado para Portland. O propsito seria extrair informao dos telefones dos manifestantes. A fora-tarefa interagncia teria usado ainda um sofisticado ataque de clonagem de celulares – cujos detalhes permanecem confidenciais – para interceptar as comunicaes dos manifestantes. A clonagem de celulares envolve o roubo de identificadores exclusivos de um telefone e sua cpia para outro dispositivo. Assim possvel interceptar as comunicaes recebidas pelo dispositivo original. Isso faz parte do que chamou de operao de “Interceptao de Voz de Baixo Nvel”. “Voc est tendo uma viso interna de seus alvos: quem so, com quem esto falando – a hierarquia”, disse o ex-oficial de inteligncia.

De acordo com ele, muitos dentro do DHS acreditam, assim como diz o presidente Donald Trump, que o antifa um grupo organizado – ao contrrio do que defende a maioria dos especialistas, incluindo o prprio diretor do FBI. O procurador-geral William Barr, por exemplo, j afirmou recentemente que o antifa est recebendo patrocnio estrangeiro, ainda que no tenha apresentado qualquer comprovao. Este seria um critrio necessrio para designar formalmente o movimento como uma organizao terrorista. isso que vem prometendo fazer Trump, desde julho.

“A coleta de inteligncia de sinais no seria til para prevenir saques oportunistas ou confrontos violentos. Isso pressupe a existncia de atividades coordenadas, propositadas e ilegais conduzidas por meios eletrnicos”, disse Steven Aftergood, que chefia o Projeto da Federao de Cientistas Americanos sobre Sigilo Governamental. “A preocupao geral que o DHS tratou os protestos pblicos em massa – no apenas indivduos violentos – como suspeitos e alvos de investigao, ou pior”, diz. J um dos ex-agentes vai alm: “Quando o presidente faz o tipo de declarao que faz, voc sabe que tem a aprovao tcita. Voc s precisa de uma piscadela de seu supervisor.”

Fonte: The Nation

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